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sábado, 25 de agosto de 2012

ANARCO FUNK DAS ELEIÇÕES 2012!


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domingo, 19 de agosto de 2012

Cambada levanta a favela e desperta crítica social por meio da arte

Rachel Duarte
Peça Margem Abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Inspirado em texto de um dos grandes nomes do teatro alemão, o grupo gaúcho ‘Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta Favela’ apresenta a peça Margem Abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas. Em cartaz no Mezanino da Usina do Gasômetro, no Centro de Porto Alegre, a peça é o primeiro teatro de vivência do jovem grupo oriundo da ‘Terreira da Tribo Ói Nóis Aqui Traveiz’. A livre adaptação do texto homônimo de Heiner Muller poderá ser assistida pela última vez neste sábado (18), a partir das 21 horas e promete cenas explícitas denunciando a violência humana e a submissão feminina.
Peça Margem Abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Algumas pessoas saem assustadas, outras criticam que o que fazemos não é teatro. Realmente nós propomos outra relação com o público. Fazemos cenas que despertem os sentidos das pessoas. Eu pesquisei muito a violência contra a mulher e esta relação dos crimes por paixão. O que propomos é na verdade uma discussão sobre o ser humano”, explica a atriz e produtora cultural do grupo, Danielle Rosa.
Peça Margem Abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
A intenção do Levanta Favela é justamente propor ao público uma reflexão. Por meio da arte, eles expressam as coisas que mais os deixam inquietos e indignados frente ao mundo.  Na mesma proposta da renovação da linguagem cênica que consagrou mundialmente o ‘Oi Nois Aqui Traveiz’, o grupo não se limita às salas de espetáculos e faz das intervenções no meio urbano sua principal identidade.
As peças populares de rua tratam de temas atuais e sempre carregados na crítica social. “Alcançamos os passantes, os moradores de rua, o bêbado que quer chamar a atenção mais que a gente. Já a Medea, é um público que tem condições de sair de casa para ir ao teatro. Geralmente são pessoas do meio cultural ou que nos conhecem, pessoas que se sentem tocadas com as peças. A troca é outra”, fala Danielle.
O contraste do colorido do figurino, das maquiagens e a movimentação dos corpos com gestos e falas são convidativos aos olhos dos transeuntes. Porém, nem sempre a arte no meio urbano é compreendida, conta a atriz. O grupo já foi xingado por estar ‘no meio do caminho’ das pessoas e em outubro de 2010 foi levado pela Brigada Militar após cinco abordagens durante uma apresentação na Esquina Democrática.
Cambada surge com protesto contra massacre de Eldorado dos Carajás
Sandro Marques | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
O improviso e o imprevisto fazem parte do teatro de rua, que tem natureza livre. Há uma tradição destas intervenções em Porto Alegre, em função dos primeiros grupos da década de 70. Um dos fundadores do Levanta Favela, Sandro Marques, se formou nas oficinas do ‘Ói Nóis Aqui Traveiz’ e é responsável por boa parte da essência do novo grupo de atores que se identificam como anarquistas.
“Desliguei-me da Terreira em 2007, quando migrei para a Casa do Estudante. Eu e a Carla Moura coordenávamos uma oficina de intervenção cênica e passamos a ensaiar com mais algumas pessoas o espetáculo de rua O Canto da Terra, resgatando a história do Brasil desde a Guerrilha do Araguaia até as questões da disputa de terra do Pará, que resultou no massacre de Eldorado dos Carajás”, explica Marques.
Depois desta peça, os atores perceberam que estava fundado um novo movimento na cidade. Foi só uma questão de acertar o nome, formalizar o grupo e encarar a dura sobrevivência no mercado cultural. A partir disso, iniciaram a promoção de oficinas de ação direta e também ampliaram a produção dos roteiros cênicos para as intervenções nas ruas.
“Nossa preocupação é sempre desenvolver peças que tenham uma história sustentada pelos atores, mas que permitam a interatividade com o público que está assistindo na rua. De modo que qualquer um que se identifique possa entrar na cena se quiser”, diz Sandro.
O teatro como transformação social
Um dos novos integrantes, Erick Feijó fez oficina do Levanta Favela | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
A escola de teatro popular oferece diversas oficinas abertas e gratuitas para a população. Às terças e quintas-feiras, das 14 às 17 horas, o Levanta Favela promove a oficina Teatro em Avanço para o Poder Popular, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. As atividades são gratuitas para todos os interessados acima de 13 anos. Nas noites de segundas-feira, o grupo promove oficinas de Ação Direta na Usina do Gasômetro e duas vezes por mês estudam anarquismo, debatendo temas com potencial para futuras intervenções.
“A proposta é fazer um debate duas vezes por mês para o grupo pensar esta postura. Também temos encontros com a Federação Anarquista Gaúcha, MST, Utopia e Luta e outros. Também participamos de conversas para discutir o social e o que acontece na nossa realidade agora e que deve ser alvo urgente de uma intervenção”, diz Danielle Rosa.
A organização do Levanta Favela é baseada no trabalho coletivo, tanto na produção das atividades teatrais, como na manutenção do espaço. Cada peça leva um ano de dedicação e ensaio para ser produzida. Na medida em que os fatos vão acontecendo no mundo o calendário de intervenções vai engordando e se repetindo anualmente. “A ideia é perguntar por que não há punição para os assassinatos de pessoas pobres e tantos outros que já marcaram a história. A tortura ainda acontece”, contesta a atriz.
“Abaixo os políticos! Abaixo os ricos! E, abaixo à Seleção Brasileira de Futebol!”
Nos quatro anos de existência, o grupo Levanta Favela produziu quatro espetáculos: Canto da Terra (2008), Árvores em Fogo (2009), Margem Abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas (2010) e Futebol, Nossa Paixão!Pra falar Sobre Política, Futebol e Religião (2011/2012). O último trabalho é uma crítica as desocupações e impactos das obras da Copa do Mundo de 2014. O roteiro é uma livre adaptação do texto “Corinthians, meu Amor” de César Vieira.
Peça Futebol, Nossa Paixão! Pra falar Sobre Política, Futebol e Religião | Foto: levantafavela.blogspot
“Apresentamos torcedores sacrificando-se pelo único prazer de ver o Brasil ser campeão com seus próprios olhos. A luta entre burgueses e os favelados, o povo brasileiro contra a Federação Internacional de Futebol. Mas tivemos o cuidado de levar em conta a delicadeza do tema, já que o futebol é uma paixão nacional”, explica Sandro Marques. Segundo ele, nas intervenções de rua, um dos trechos do texto causa desconforto no público. “Abaixo os políticos. Abaixo os ricos e abaixo a Seleção de Futebol”. “Quando eu falo as duas primeiras é tranquilo, mas quando eu falo ‘abaixo a Seleção de Futebol’, dói no coração das pessoas”, conta.
A peça da Copa está rodando o país. Recentemente a intervenção foi feita dentro da programação da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20, ocorrido no Rio de Janeiro. Porém, nem todas as viagens dão frutos para além da troca de experiência. As questões financeiras e os baixos cachês desafiam os 11 integrantes do Levanta Favela a manter o grupo ativo com recursos do próprio bolso.
Falta de incentivo e sobrevivência
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Cada espetáculo de teatro de sala ou palco custa em média R$ 20 reais, o que pode ser caro para boa parte da população brasileira, mas rende pouco do ponto de vista da sobrevivência dos atores. “Cada pote de pancake que utilizamos em todos os integrantes para as intervenções diretas nas ruas custa R$ 39,00”, ilustra Danielle que é responsável pela compra dos materiais.
Atualmente o grupo conseguiu se livrar do aluguel da sala para ensaios porque ingressou no projeto Usina das Artes. A ajuda de custo no valor de R$ 2,5 mil contribui para as despesas mínimas, mas não é suficiente para o volume gasto com produção de espetáculos, impressão de convites, divulgação e logística dos atores. “Até buscamos a Lei de Incentivo à Cultura, mas os projetos selecionados geralmente têm um diretor renomado por trás e um clipping de divulgação que os promove. Além do que, teatro é apenas uma das partes da verba da cultura, que já é pequena”, lamenta a atriz.
"20 reais é caro, mas pra gente não adianta quase nada", declara Sandro | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Eu acho que quem já está no meio comercial e tem condições nem poderia receber Lei de Incentivo a Cultura”, critica Sandro Marques. Segundo o fundador do grupo, as políticas públicas deveriam ser mais democráticas e universalizar a cultura. “Às vezes há um desconhecimento dos gestores culturais sobre as nossas necessidades. Os trabalhadores da cultura é que sabem como gerir a cultura, não o estado. O poder público tem que dar condições e não ditar o que é cultura”, fala.
“Priorizam eventos ao invés do trabalho continuado, que é o que não aparece e não rende imagem para as administrações. Grandes espetáculos recebem uma lista de patrocínios e são grupos que já tem condições de se pagar. Além do acesso ser caro para a população depois. Quando as pessoas saem das nossas peças de rua e entendem que a cultura é uma transformação social, eu fico muito satisfeita”, entusiasma-se Danielle.